{"id":19308,"date":"2025-01-24T16:04:45","date_gmt":"2025-01-24T19:04:45","guid":{"rendered":"http:\/\/atitudenoticias.com.br\/?p=19308"},"modified":"2025-01-24T16:06:33","modified_gmt":"2025-01-24T19:06:33","slug":"revolta-dos-males-190-anos-da-maior-rebeliao-escrava-urbana-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/?p=19308","title":{"rendered":"Revolta dos Mal\u00eas: 190 anos da maior rebeli\u00e3o escrava urbana do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong><em>Epis\u00f3dio \u00e9 parte de diversas revoltas que ocorreram na Bahia<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 24 de janeiro de 1835, trabalhadores africanos escravizados&nbsp;ocuparam Salvador (BA) enfrentando, durante mais de tr\u00eas horas, civis e soldados coloniais na revolta que ficou conhecida como a mais importante rebeli\u00e3o urbana de escravizados do Brasil.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1627140&amp;o=node\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1627140&amp;o=node\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda hoje, 190 anos depois, a Revolta dos Mal\u00eas \u00e9 lembrada em estudos, livros, blocos de carnaval, filmes e exposi\u00e7\u00f5es de arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estima-se que 600 africanos tenham participado do movimento. Proporcionalmente, isso equivaleria a 12 mil pessoas considerando a popula\u00e7\u00e3o atual de Salvador. O historiador baiano Jo\u00e3o Jos\u00e9 dos Reis calculou que mais de 70 africanos morreram nos conflitos e cerca de 500, em estimativas conservadoras, foram punidos com penas de morte, pris\u00e3o, a\u00e7oites ou deporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEmbora durasse pouco tempo, foi o levante de escravos urbanos mais s\u00e9rio ocorrido nas Am\u00e9ricas\u201d, afirma o especialista no livro&nbsp;<em>Rebeli\u00e3o Escrava no Brasil: a Hist\u00f3ria do Levante dos Mal\u00eas (1835)<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O historiador dos Reis estima que Salvador tinha, em 1835, 65,5 mil habitantes, sendo 42% escravos (27,5 mil) e 29,8% de negros ou pardos livres (19,5 mil). Os brancos representavam 28,8% da popula\u00e7\u00e3o da capital baiana (18,5mil).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O termo mal\u00ea era como os africanos mu\u00e7ulmanos trazidos ao Brasil eram chamados, sendo esse o principal grupo que organizou o levante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chamada tamb\u00e9m de Grande Insurrei\u00e7\u00e3o, o epis\u00f3dio \u00e9 parte de diversas revoltas que ocorreram na Bahia entre 1807 e 1844, sendo a dos Mal\u00eas a mais importante delas, segundo pesquisa do historiador e soci\u00f3logo Cl\u00f3vis Moura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo esse pesquisador, a revolta de 1835 n\u00e3o foi uma eclos\u00e3o violenta e desorganizada, surgida por um incidente qualquer. At\u00e9 mesmo um fundo com recursos foi criado para financiar as atividades dos escravizados rebeldes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c[O levante] ser\u00e1 planejado nos seus detalhes, precedido de todo um per\u00edodo organizativo \u2013 fase obscura de aliciamento e prepara\u00e7\u00e3o. Esses escravos se reuniram secretamente em diversos pontos de Salvador. Criaram um clube, tamb\u00e9m secreto, que funcionava na Barra [da Vit\u00f3ria]\u201d, afirmou Moura no livro&nbsp;<em>Os Quilombos e a Rebeli\u00e3o Negra<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O plano era, ap\u00f3s a eclos\u00e3o da rebeli\u00e3o em Salvador, seguir para os engenhos, o epicentro da escravid\u00e3o baiana.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cDe l\u00e1 vieram combatentes para a cidade; desta seguiriam as for\u00e7as rebeldes para levantar a escravaria dos engenhos\u201d, afirmou o historiador Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mal\u00eas hoje<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revolta ainda ecoa nos dias atuais ao ser resgatada por estudos, livros, filmes, blocos de carnaval e obras de arte. Em 1979, a revolta deu nome ao bloco afro Mal\u00ea Debal\u00ea, de Salvador, que homenageia os que lutaram contra a escravid\u00e3o em 1835.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos maiores cl\u00e1ssicos da literatura brasileira do s\u00e9culo 21, o livro&nbsp;<em>Um Defeito de Cor<\/em>, de Ana Maria Gon\u00e7alves, publicado em 2006, conta a hist\u00f3ria da personagem Kehinde, sequestrada na \u00c1frica e trazida \u00e0 Bahia no in\u00edcio do s\u00e9culo 19.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na obra, Ana Maria retrata, como pano de fundo do romance, fatos hist\u00f3ricos ligados \u00e0 Revolta dos Mal\u00eas. Kehinde, rebatizada Lu\u00edsa Mahin ao chegar a Salvador, participou da revolta e foi a m\u00e3e do l\u00edder abolicionista Luiz Gama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final de 2024, estreou nos cinemas o longa-metragem&nbsp;<em>Mal\u00eas<\/em>, estrelado e dirigido por Ant\u00f4nio Pitanga, que retrata a hist\u00f3ria da insurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exposi\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>Eco Mal\u00eas<\/em>, em cartaz na&nbsp;<a href=\"https:\/\/casadashistoriasdesalvador.com.br\/ecos-males\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Casa das Hist\u00f3rias de Salvador<\/a>&nbsp;at\u00e9 maio de 2025, re\u00fane 114 obras de 48 artistas que refletem a influ\u00eancias contempor\u00e2neas da Revolta dos Mal\u00eas. O acesso \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 gratuito nas quartas-feiras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O curador da exposi\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o Victor Guimar\u00e3es, explicou \u00e0&nbsp;<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>&nbsp;que realizou uma pesquisa sobre pr\u00e1ticas art\u00edsticas que trazem alguns dos pilares da revolta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTemos a pr\u00f3pria ideia de que, para alcan\u00e7ar um objetivo comum, \u00e9 necess\u00e1rio ceder. Os mal\u00eas tinham como plano matar todos os brancos e os negros que n\u00e3o se convertessem ao islamismo. No entanto, para a revolta avan\u00e7ar, eles negociaram com irmandades crist\u00e3s e terreiros de Candombl\u00e9\u201d, destacou Jo\u00e3o Victor.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A revolta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcada para o dia 25 de janeiro, data que celebrava o fim do Ramad\u00e3, m\u00eas sagrado para os mu\u00e7ulmanos, a revolta foi antecipada em um dia ap\u00f3s uma dela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVendo que tinham que antecipar a revolta, lan\u00e7aram-se \u00e0 carga de qualquer maneira: a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o comportava mais esperas\u201d, contou Cl\u00f3vis Moura.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vestidos com roupas tradicionais dos mul\u00e7umanos na Bahia, os rebeldes lutaram pelas ruas da antiga capital brasileira, tentando libertar o escravo Pac\u00edfico Licut\u00e3, que estava preso, mas n\u00e3o conseguiram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVerdadeira carnificina. As posi\u00e7\u00f5es mais vantajosas dos legais, al\u00e9m da superioridade de armamentos, fizeram com que os insurretos fossem definitivamente batidos\u201d, completou Moura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as lideran\u00e7as da insurrei\u00e7\u00e3o, estavam principalmente os negros nag\u00f4s (iorub\u00e1s), mas tamb\u00e9m haviam hau\u00e7as, tapas e de v\u00e1rias outras na\u00e7\u00f5es africanas, tanto escravizados, quanto livres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os l\u00edderes do movimento, encontram-se os escravos Pac\u00edfico Licut\u00e3 e Ahuna, al\u00e9m do preto forro Belchior da Silva Cunha, que emprestava a casa para as reuni\u00f5es, assim como Lupis Sanim e Manuel Calafete.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O historiador Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis explica, em sua obra, que a maior independ\u00eancia de que gozavam os escravos urbanos, trabalhando nas ruas para seus senhores, facilitou a organiza\u00e7\u00e3o da revolta.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEm geral, os escravos percorriam toda a cidade trabalhando para seus pr\u00f3prios senhores ou, principalmente, contratados por terceiros para servi\u00e7os eventuais. Muitos escravos sequer moravam na casa senhorial\u201d, enfatizou.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cl\u00f3vis Moura conta que as lutas escravas ao longo dos quase 400 anos de escravid\u00e3o no Brasil conseguiam desgastar a classe senhorial em aspectos pol\u00edtico, econ\u00f4micos e psicol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuem examina a documenta\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo da nossa hist\u00f3ria encontra, como uma constante, o medo dessas classes diante do grande n\u00famero de escravos e da sua poss\u00edvel consci\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o a que estavam sujeitos. O exemplo do Haiti \u00e9 constantemente referido por essas autoridades\u201d, diz Clovis Moura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1804, o Haiti conquista a independ\u00eancia ap\u00f3s uma revolu\u00e7\u00e3o dos escravizados que fundam a primeira Rep\u00fablica negra liberta das Am\u00e9ricas. <em><strong>\u00a0(EBC)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio \u00e9 parte de diversas revoltas que ocorreram na Bahia No dia 24 de janeiro&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":19309,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,92],"tags":[],"class_list":["post-19308","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","category-historia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19308"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19308\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19310,"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19308\/revisions\/19310"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/19309"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/atitudenoticias.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}