Home Música Em meio à última turnê do Sepultura, Andreas Kisser fala de vida sem álcool e finitude após perda da mulher: ‘A morte tem sido minha professora’

Em meio à última turnê do Sepultura, Andreas Kisser fala de vida sem álcool e finitude após perda da mulher: ‘A morte tem sido minha professora’

por Atitude Notícias
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Com shows no Rio e em SP, roqueiro diz que pensa em reunir ex-integrantes em último show: ‘Se vai rolar, aí depende de muita coisa’

Na impressionante multidão de 125 mil pessoas que acompanhou o show do Kiss, no Estádio do Morumbis, na Zona Sul paulistana, em 1983, um adolescente teria um destino luminoso na cena do heavy metal global — e foi profundamente inspirado por aquele dia. Trata-se de Andreas Kisser, um garoto de 14 anos que morava no ABC Paulista e experimentava, naquele momento, o estudo do violão. Quatro anos depois da apresentação, Kisser (que tem este nome de batismo, apesar da coincidência) debutaria como guitarrista no ainda jovem Sepultura, banda que ganhou uma até então inédita fama global, percorreu 80 países e encerrará as atividades em uma turnê que se inicia neste 2024 e terá fôlego até 2026. O quarteto passa pelo Rio, na Farmasi Arena, no próximo dia 31, e por São Paulo, no Espaço Unimed, entre 6 e 8 de setembro (com os dois primeiros dias esgotados).

A decisão do fim partiu de Kisser, que em 2022 enfrentou a morte da esposa, Patrícia Perissinotto, aos 52 anos, devido a um câncer. A partida da companheira instalou novos pensamentos no artista, que passou a defender publicamente que o país avance em discussões sobre eutanásia, por exemplo. Em entrevista ao GLOBO, pouco antes de ensaiar com os companheiros de banda Paulo Jr. (um dos primeiros membros), Derrick Green e Greyson Nekrutman, Kisser falou sobre o amor pela música, os desafios inaugurados pelo fim da banda (o que inclui a saída do baterista Eloy Casagrande às vésperas do início da turnê de adeus) e do que aprendeu com o luto: “A morte tem sido minha maior professora”. Confira os principais trechos.

Sepultura nos tempos de “Arise” (1991): Andreas Kisser, Max Cavalera, Paulo Xisto e Iggor Cavalera. Hoje, Andreas e Paulo levam o grupo adiante, enquanto os irmãos Cavalera formaram o Cavalera Conspiracy e fazem questão de regravar sua própria versão do antigo repertório do Sepultura — Foto: Divulgação
Sepultura nos tempos de “Arise” (1991): Andreas Kisser, Max Cavalera, Paulo Xisto e Iggor Cavalera. Hoje, Andreas e Paulo levam o grupo adiante, enquanto os irmãos Cavalera formaram o Cavalera Conspiracy e fazem questão de regravar sua própria versão do antigo repertório do Sepultura — Foto: Divulgação

Começo do fim

“No dia 1º de março (quando começou a turnê), foi um show muito significativo na carreira. Muita coisa aconteceu ali. Teve a saída do Eloy (Casagrande, baterista que deixou a banda para integrar o Slipknot) três semanas antes. Foi preciso organizar tudo com Greyson (novo baterista), os ensaios. Houve aquela ansiedade do primeiro show. Era também o aniversário de um amigo querido, que tinha falecido meses antes. Foi uma data cheia de significados. Greyson fez um trabalho maravilhoso em pegar as músicas. Eu mesmo já toquei com muita gente diferente e, nessa carreira, a gente aprende a fazer adaptações. Nunca chegamos para ele e dissemos que deveria tocar como o Eloy, ou o Igor (Cavalera, que deixou a banda em 2006) ou o Jean (Dollabella, que saiu do Sepultura em 2011). Vamos deixar acontecer. Estamos prontos para acabar, no melhor momento, e curtir até o final.”

Sobriedade

“A estreia da turnê também marcou um ciclo de quatro anos desde que parei de beber. Isso aconteceu após um churrasco de família, em um ‘sabadão’. Eu estava tomando uísque, cerveja, normal. Mas tem aqueles dias em que as coisas são diferentes. Eu comecei a chutar os cachorros, não literalmente, passei a jogar merda no ventilador. Totalmente fora de controle. Acabei voltando a pé pra casa, ao mesmo tempo alucinado, bêbado, mas sóbrio. Comecei a falar comigo. Pensei: ‘O álcool está fazendo as escolhas pra você.’ Cheguei a não ir à Disney com minha família porque não tinha cerveja lá. Não tive problemas físicos com a bebida, tanto que quando decidi parar eu consegui. Mas era uma rotina beber no hotel, no aeroporto, camarim, só que não é assim pra todo mundo. Gene Simmons, do Kiss, por exemplo, nunca bebeu. Decidi parar, mas às vezes tomo cerveja zero.”

Luto

“A morte tem sido minha maior professora. Muito do que vivo tem a ver com respeitar mudanças de ciclos, a finitude. Parte desses fins a gente escolhe, como é o caso do Sepultura. Mas tem os que você não escolheu, como o caso do câncer da Patrícia. A morte é um elefante na sala, que ninguém fala nesse país. Não há conversas sobre eutanásia, suicídio assistido, testamento vital, cuidado paliativo. Acho que através da morte, como é o nome da turnê do Sepultura (Celebrating life through death: do inglês celebrando a vida através da morte), você encontra a vida. Patrícia tinha muito disso. Ela falava de morte de uma maneira muito leve. Ela brincava: ‘Pô, quando eu morrer, não vai esquecer de colocar meu travesseiro, cobertor, a meia no meu pé e o meu pijama, que eu não quero passar frio, quero ficar confortável’. Na hora a gente ria, mas quando ela morreu, todo mundo sabia o que ela queria. Foi a coisa mais linda do mundo, deu uma paz para todos que estavam ali.”

Numa fria

“Meu objetivo é ter velhice com qualidade. E acho importante sempre conversar com você mesmo. Ultimamente, tenho feito pouco, mas durante a pandemia a meditação me ajudou demais. É uma coisa muito íntima, de autoconhecimento. Você começa a ouvir o seu corpo de uma forma diferente, escuta o seu pé, seu peito, o fígado. Ouvir no sentido de perceber que estão aqui, dá para conversar com eles e dizer: ‘Se acontecer alguma coisa você me avisa, hein?’ (risos). Também tomo banho de gelo, que é sensacional. Comecei com 30 segundos debaixo de um chuveiro. E hoje dá para ficar três minutos em uma piscina de gelo. A dor é uma mensagem também. Se não tivesse a dor, como a gente ia saber dos nossos problemas? Temos que respeitar. Comecei o pilates na pandemia, hoje faço uma prancha de 12 minutos. É uma sensação inacreditável, uma conversa com o corpo. Demorou um ano para eu chegar nos dez minutos. Mas foi um processo tranquilo. Tudo é mais psicológico que físico.”

Reggae

“Comecei a tocar com o violão da minha avó. Ela veio da Eslovênia, depois da Segunda Guerra, e cantava maravilhosamente bem. A primeira música que aprendi, na aula de violão, foi ‘Planeta água’, do Guilherme Arantes, ainda nos anos 80. Estou estudando chorinho agora, as baixarias, algo que sempre amei. O violão sempre teve paralelo ao que faço na guitarra elétrica. Tanto é que tem bastante violão no Sepultura, no meu trabalho solo também. Toco com muita gente diferente na minha carreira. Eu amo o reggae, por exemplo, e estou namorando uma maranhense e talvez esteja sob essa influência (risos). Derrick (vocalista do Sepultura) também é um grande apreciador desse som. A gente sempre teve essa ideia, uma brincadeira, de eu e ele criarmos uma banda de reggae. Mas o nome do grupo não vou revelar (risos).”

Tudo tem limite

“Os planos para o encerramento da banda estão abertos, mas a gente tem um limite de 2026 para fazer o último show. Queremos fazer o máximo possível, celebrar tranquilo, não tem pressa, sabe? Vamos esticar até onde for possível. Queremos ir para a Islândia, por exemplo, aonde nunca fomos. Tocar no Alasca, algo que a gente nunca conseguiu. É como se estivéssemos morrendo mesmo. Vamos realizar nossos sonhos antes de partir dessa pra melhor. Na nossa história, visitamos quase 80 países, fomos para a Coreia do Sul e até para a União Soviética, a Rússia, em 1992. Lá vimos uma situação ainda destruidora. Vimos Lituânia e Letônia um pouco largadas. Hoje são países fantásticos, né, que cresceram daquilo. Em relação ao público, não espero a mesma conexão sempre, sou um procurador de coisas diferentes. Na pandemia, perguntávamos: ‘Quando é que vai voltar? Ah, daqui a três meses vamos voltar.’ Mas eu pensava: ‘Voltar para onde? Qual o passado: 1988 ou semana passada?’ Não existe volta, mano.”

Volta às origens

“A gente está trabalhando na possibilidade de um último show com participação não só deles (dos irmãos Iggor e Max Cavalera, fundadores, que romperam com a banda), mas de todos que fizeram parte dela. Essa é a ideia. Se vai rolar, aí depende de muita coisa.”

(Por: Mariana Rosário/OGlobo)

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