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Bahia é o estado mais violento do Brasil? Entenda o que está por trás dos homicídios no estado

por Atitude Notícias
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Atlas da Violência também revelou que a Bahia tem 10 das 20 cidades mais violentas do Brasil

Em 17 de fevereiro de 2024, Ivan Santos Silva, de 40 anos, foi morto em um campo de futebol no Subúrbio de Salvador. Como um dia qualquer, ele assistia ao ‘baba’ que acontecia quando foi pego de surpresa por um homem que se aproximou pelas suas costas e atirou. Ivan foi uma das 6.061 vítimas da violência na Bahia naquele ano. Os dados, que colocam o estado como o mais violento do Brasil em números absolutos, foram divulgados nesta terça-feira (26), no Atlas da Violência 2026.

Das 20 cidades brasileiras com os maiores índices de assassinatos, dez estão na Bahia. No topo do ranking nacional aparece Maranguape (Ceará), com taxa de 87,2 mortes por 100 mil habitantes. Em segundo lugar está Jequié, no sudoeste baiano, que registrou índice de 79,4. Na edição anterior do Atlas da Violência, divulgada em 2025, o município também ocupava a segunda posição, quando apresentou taxa de 77,6 mortes por 100 mil habitantes.

Juazeiro, Feira de Santana, Porto Seguro, Simões Filho, Camaçari, Teixeira de Freitas, Lauro de Freitas, Ilhéus, Salvador completam a lista entre os representantes baianos. O Atlas da Violência é realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Para Antonio Mateus Soares, sociólogo e pesquisador da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), o que explica essa quantidade de cidades baianas entre as mais violentas é o deslocamento do crime.

“A presença do tráfico em municípios interioranos não ocorre de forma espontânea, mas resulta de uma racionalidade estratégica das organizações criminosas, que identificam territórios com maior vulnerabilidade social, menor capacidade de resposta estatal e posições logísticas favoráveis para a circulação de mercadorias ilícitas”, analisa o especialista.

Sobre Jequié, Soares explica que, por ser um eixo rodoviário importante, a cidade facilita “fluxos logísticos e a distribuição de drogas ilícitas para diferentes regiões do estado”. Além da Bahia, o ranking reúne municípios do Ceará, Mato Grosso, Pernambuco, Amapá e Pará. Das 20 cidades com as maiores taxas de homicídio do país, 17 estão localizadas no Nordeste, o que reforça a concentração da violência letal na região.

Jovens em perigo

A Bahia aparece à frente dos estados mais populosos do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em comparação com Pernambuco, segundo estado com maior número de homicídios no país, a Bahia registrou 71,5% mais mortes em 2024. Enquanto o estado baiano contabilizou 6.062 assassinatos, o vizinho nordestino somou 3.534 ocorrências.

Já os três estados mais populosos do Brasil – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – registraram 3.041, 2.731 e 3.520 homicídios, respectivamente.

Para o sociólogo Antonio Soares, a liderança estatística do estado baiano exige uma análise multidimensional. “A Bahia apresenta singularidades que a diferenciam da dinâmica criminal observada em muitos estados do Sudeste brasileiro”, explica o especialista. Segundo ele, o mercado ilícito no estado opera majoritariamente na lógica do varejo, o que causa “a fragmentação e a ampliação de grupos faccionados, intensificando as disputas pelo controle territorial”. Essa dinâmica puxa os índices de letalidade para cima.

Conforme o levantamento, o Brasil teve 42.590 homicídios, com taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes. A Bahia teve 14,2% dos homicídios do país e figura como o segundo estado mais violento no ranking proporcional, com taxa de 40,9 mortes por 100 mil habitantes. O estado aparece atrás apenas do Amapá (taxa de 45,7) e à frente de Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3).

O número de mortes de jovens baianos também chama a atenção: foram 3.440 homicídios de pessoas entre 15 e 29 anos, equivalente a 56,7% do total de ocorrências do estado, liderando a estatística nacional. Pernambuco, em segundo lugar, teve 1.814 mortes.

Na bruta estatística da Bahia está Gabriel Santos Costa, morto aos 17 anos em Salvador, na madrugada de 1º de dezembro de 2024. Um vídeo mostra o jovem e um amigo rendidos no chão e executados a tiros por um atirador que fugiu em seguida. “Os meninos estavam no solo. Podia ser o pior vagabundo, mas ele (suspeito) não podia matar um ser humano”, lamentou o pai de Gabriel na época.

Analisando a letalidade juvenil, Soares destaca o cenário de vulnerabilidade. “A exclusão histórica das juventudes no estado resulta da combinação de fatores econômicos, sociais, raciais e culturais que limitam oportunidades”, pontua. O pesquisador reforça que, diante da falta de perspectivas, “muitos jovens tornam-se mais suscetíveis ao aliciamento por organizações criminosas”. Ele frisa ainda que o fenômeno se liga diretamente ao racismo estrutural, expondo especialmente a juventude negra à violência desproporcional.

(Por: Maria Raquel Brito e Alan Pinheiro/Correio24hs)

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