Com a eleição de Luis Inácio Lula da Silva cresce a esperança em programas como o Fome Zero

Com a esposa recém falecida, sem emprego ou qualquer auxílio financeiro do governo, Wellington Souza, de 39 anos, pediu que a irmã cuidasse dos dois filhos, de 10 e 14 anos, e foi viver nas ruas de Salvador em meio à pandemia. A luta pela vida e por comida é diária, assim como o esforço que ele faz para não perder a esperança de voltar para os filhos. “Evito entrar em contato com eles, não quero que me vejam assim. Viver nas ruas é cruel e perigoso, muitas vezes a gente precisa se misturar com quem não deve para sobreviver”, conta.
Wellington, que vive no centro da capital, conta que o número de pessoas em situação de rua cresceu muito em Salvador na pandemia e que os bons dias são aqueles em que aparecem pessoas doando comida. O problema é que isso não acontece sempre e a garantia de ao menos uma refeição por dia não existe, uma realidade que hoje é vivida por mais de 242 mil famílias soteropolitanas – da Gamboa, Água de Meninos, Mares, Itapuã, Politeama, Piedade, Subúrbio Ferroviário, entre outros locais – que, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Penssan), estão hoje em situação de pobreza e fome extremas.
Na Bahia, 62,6% da população está com algum nível de insegurança alimentar (IA) – 11,4% está em IA grave, de acordo com o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar (Vigisan). Ou seja, cerca de 1,7 milhão de baianos acordam todos os dias como Wellington, sem saber se irão comer algo. O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), se comprometeu a, mais uma vez, combater a fome no Brasil no novo governo e se emocionou ao falar sobre os 33 milhões de brasileiras e brasileiros que passam fome hoje no País.
“Hoje, é urgente que Lula volte com o Fome Zero, um programa que tinha uma série de políticas públicas envolvendo a sociedade, o meio empresarial e todos os órgãos do governo federal, mas que foi desprezado pelo governo atual. Mas é preciso que o programa volte fortalecido não só pelas antigas políticas, mas com outras alternativas e medidas”, diz o titular estadual da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, Carlos Martins.
Até mesmo o crescimento de soteropolitanos no Cadastro Único (CadÚnico), responsável por benefícios que visam amenizar a vulnerabilidade de famílias, tem mostrado um aumento significativo de famílias em situação vulnerável, principalmente em decorrência da pandemia: das 354.738 famílias no Cadúnico até dezembro de 2021, 212.118 (59,7%) estavam em situação de extrema pobreza. Em 2022, das 512.104 (até outubro), 338.568 (66,1%) estão em extrema pobreza.
Para Daniel Ribeiro, titular da Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre) de Salvador, os impactos e as consequências da pandemia necessitam da atuação de todas as instâncias de governo. “A prefeitura tem atuado nas áreas mais pobres da cidade, e entre janeiro e outubro deste ano já destinou R$ 219 milhões para política de assistência social com uma previsão de investimento na ordem de R$ 260 milhões. O investimento estimado para 2023 é de R$ 300 milhões, tudo destinado para a implantação e modernização de equipamentos socioassistenciais para a prestação de serviços à população”, informa o gestor.
Porém, não foi fácil manter todos os programas de apoio funcionando bem nos últimos tempos, destaca Carlos Martins. Projetos como o Programa de Aquisição (PA) de Alimentos e o de Leite – criados no governo Lula e que ajudaram mais de dois milhões de baianos durante a pandemia – sofreram no último ano, principalmente pela forma com que o atual Governo Federal trata a situação. “Foi um tipo de descontinuidade gerencial. Alguns municípios receberam diretamente sem passar pelo Estado, e outros praticamente ficaram congelados, impactando o número de pessoas que passam fome e aumentando esses números”, aponta Martins.
E quem muito viu esses números crescerem foi Cláudio de Jesus, de 65 anos, que vive em situação de rua há mais de cinco anos: “O perigo de viver nas ruas só aumenta dia após dia. As pessoas que vivem nas ruas estão mais perigosas, todos os dias acontecem muitas brigas, na mão e na faca”.
Apoio
Enquanto a falta de segurança afasta os benfeitores ‘civis’, é a falta de apoio dos governantes e a crise econômica da pandemia que têm dificultado o trabalho das ONGs que doam alimentos. “A gente faz o que pode para sobreviver e recebe ajuda de pessoas muito boas, a quem sou agradecida. Mas quem deveria nos ajudar a ter o que comer são os governantes, sim? Mas eles não estão nem aí, não ajudam nem mesmo as organizações que nos ajudam”, lamenta Jussara de Santos Almeida, de 43 anos, que recebe cestas básicas e auxílio da Central Única de Favelas (Cufa) da Bahia.
O ponto é que erradicar a fome de todo o Brasil não é algo que se pode fazer do dia para a noite e não basta apenas entregar comida às pessoas. A própria Jussara, por falta de oportunidades, recolhe recicláveis para complementar a alimentação e pagar as contas, enquanto é ajudada pelas doações. Mas essas pessoas não querem ficar nessa condição para sempre, elas querem trabalhar, enfatiza o presidente da Cufa Bahia, Márcio Lima.
“O Governo Federal precisa urgentemente criar ações de combate à fome, assim como ampliar a capacidade de produção de alimentos saudáveis, pois quando a fome aumenta, mais as pessoas começam a consumir produtos não são saudáveis como alternativa. No entanto, é preciso investir também na oportunidade de emprego, porque as pessoas que estão em insegurança alimentar, hoje, querem trabalhar para sair dessa situação. Vimos isso funcionar entre 2012 e 2014, e acredito que podemos fazer isso acontecer outra vez”, salienta o presidente da Cufa Bahia.
Pandemia de Covid agravou a fome
A fome sempre foi um problema grave no Brasil, isso é histórico, aponta o presidente da Central Única das Favelas (Cufa) da Bahia, Márcio Lima. Mas a pandemia agravou a situação. Ele destaca que a entidade nunca foi “assistencialista”, sempre pautando o trabalho na educação, cultura e empreendedorismo, mas que eles precisaram parar essas atividades para combater a insegurança alimentar e a fome dentro das favelas em 2020.
“Conseguimos mobilizar parceiros, como empresas privadas e a própria sociedade, para conseguir entregar cestas básicas para as famílias. Chegamos a doar 10 mil cestas básicas por mês, durante seis meses, em alguns bairros de Salvador, região metropolitana de Camaçari, Lauro de Freitas e Candeias, fora outras sete mil cestas de parceiros, o que nos permitiu atingir outros locais; e conseguimos alcançar 178 municípios durante 2020 e 2021”, conta o presidente da Cufa Bahia.
Este ano
Em 2022, percebendo que a situação se agravou, a Cufa voltou a mobilizar a sociedade e parceiros para continuar esse trabalho que combate a fome nas favelas. “E isso é em todo o Brasil. Contando com as da Bahia, são mais de cinco mil favelas, no entanto, foi nítida a queda no número de doações durante o período eleitoral e estamos aqui nos mobilizando novamente para fazer ações emergenciais nesse território que tanto grita de fome”, alerta Márcio Lima.
(Por: Priscila Dórea)