Rotas passam por Mata Atlântica, Caatinga e campos rupestres, conectam unidades de conservação e também recuperam caminhos históricos e culturais do estado
A Bahia tem ampliado a rede de trilhas de longo curso que conecta áreas naturais, unidades de conservação, patrimônios históricos e comunidades. São caminhos que atravessam diferentes paisagens do estado, da Mata Atlântica do Extremo Sul aos cânions do Rio São Francisco, passando pelas serras e campos rupestres da Chapada Diamantina.
O movimento acompanha uma expansão nacional das trilhas de longo curso. Segundo levantamento da Rede Brasileira de Trilhas, o Brasil tem cerca de 205 trilhas planejadas, que somam mais de 41 mil quilômetros. Desse total, 16 mil quilômetros já estão implementados em campo. Em junho de 2026, o governo federal criou o Sistema Nacional de Trilhas (Sintrilhas), que estabeleceu diretrizes para o setor.
Na Bahia, há pelo menos dez trilhas e conjuntos de trilhas em diferentes estágios de implementação, algumas já integradas ou em processo de integração à Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso.
Caminhos do Brasil Original
No Extremo Sul da Bahia, os Caminhos do Brasil Original têm aproximadamente 360 quilômetros, em processo de sinalização e expansão. A rota passa por Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, de Caraíva a Guaiú.
O percurso conecta importantes unidades de conservação da Mata Atlântica, entre elas os parques nacionais do Pau Brasil (no distrito de Vale Verde), Histórico do Monte Pascoal (no distrito de Caraíva), entre outras unidades de conservação federais e estaduais.
No Parque Nacional do Pau Brasil, em Porto Seguro, a trilha é administrada pelo parque.
Além do Caminhos do Brasil Original, que começa ou termina no Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, ainda é possível percorrer um outro trajeto: o Caminhos dos Pataxó, trilha que conecta o mar ao Monte Pascoal ou vice-versa (em sentido leste x oeste ou oeste x leste).
Caminho do Bom Jesus
Com aproximadamente 420 quilômetros, o Caminho do Bom Jesus liga a Catedral de Vitória da Conquista ao Santuário do Bom Jesus da Lapa, passando por municípios do Sudoeste e do Oeste baiano.
A rota pode ser percorrida a pé, de bicicleta ou a cavalo e reúne uma combinação de peregrinação religiosa, história e paisagens do interior da Bahia.
Entre os locais associados ao percurso estão Guajeru, Santa Rita, distrito de Riacho de Santana, Igaporã, Caetité e Bom Jesus da Lapa.
A trilha é administrada pela Associação dos Amigos do Caminho do Bom Jesus (AACBJ), presidida por Gislaine Tavares.
Trilha Transespinhaço (Chapada Diamantina)
Na Chapada Diamantina, a Trilha Transespinhaço integra uma megatrilha com mais de 1.000 quilômetros, que percorre a Cordilheira do Espinhaço desde Minas Gerais até a Bahia.
O trecho baiano reúne cerca de 200 quilômetros de travessias interconectadas e passa por Rio de Contas, Piatã, Ibicoara, Mucugê, Andaraí, Palmeiras e Lençóis.
O percurso aproveita antigos caminhos utilizados por garimpeiros e tropeiros e atravessa áreas de campos rupestres e serras da Chapada Diamantina.
Volta ao Parque Nacional da Chapada Diamantina
Outra proposta na Chapada é a Volta ao Parque Nacional da Chapada Diamantina, também chamada de Caminhos da Chapada. A rota tem cerca de 180 a 200 quilômetros e reúne travessias tradicionais em um grande percurso circular.
O caminho passa por Lençóis, Palmeiras, incluindo a Vila do Capão, Andaraí, com a Vila de Igatu, Mucugê e Ibicoara.
Entre os destaques estão o Vale do Pati, o Vale do Capão, os vales do Rio Paraguaçu e diferentes cachoeiras da região. A rota ainda está sendo integrada à Rede Brasileira de Trilhas.
Caminhos do Cangaço
Em Paulo Afonso, no norte da Bahia, os Caminhos do Cangaço recuperam uma rota histórica na região do Raso da Catarina e do Monumento Natural do Rio São Francisco.
São cerca de 40 quilômetros planejados, dos quais aproximadamente 20 quilômetros já estão estruturados e manejados. O percurso liga a área urbana ao povoado Malhada da Caiçara, onde fica a casa histórica de Maria Bonita.
A região também abriga outras trilhas que se conectam ao percurso, ampliando a possibilidade de circulação pela paisagem dos cânions do São Francisco.
Corredor Litorâneo Baiano
A Bahia também participa da expansão da RedeTrilhas Litoral, com trechos contínuos que somam mais de 150 quilômetros em implementação.
As rotas passam por Maraú, Itacaré, Ilhéus, Una, Canavieiras, Cairu — incluindo as ilhas de Tinharé e Boipeba — e Camaçari.
O corredor conecta praias, restingas e unidades de conservação, entre elas a APA de Itacaré, a APA de Tinharé/Boipeba e a Reserva de Vida Silvestre de Una.
Serra do Umbuzeiro
Também em Paulo Afonso, a Trilha Serra do Umbuzeiro margeia o Monumento Natural do Rio São Francisco. O projeto prevê 39 quilômetros, dos quais 2,6 quilômetros já foram implementados.
A trilha faz conexão com a Trilha dos Cânions e com os Caminhos do Cangaço, formando uma rede de percursos na região do São Francisco.
Trilha dos Cânions do Rio São Francisco
Ainda em Paulo Afonso, a Trilha dos Cânions do Rio São Francisco está inserida no Monumento Natural do Rio São Francisco.
São 60 quilômetros planejados e 11,7 quilômetros já implementados. O percurso integra o conjunto de trilhas que vem sendo estruturado na região e se conecta à Serra do Umbuzeiro e aos Caminhos do Cangaço.
As três trilhas da região – Serra do Umbuzeiro, Caminhos do Cangaço e Trilha Cânions do Rio São Francisco – são administradas pela Prefeitura Municipal de Paulo Afonso, por meio da Secretaria Municipal de Turismo, Indústria e Comércio (Secretário Emerson Leandro de Oliveira), COMTUR (Conselho Municipal), ICMBIo e representantes das Comunidades Tradicionais locais, proprietários das áreas naturais e instituições de ensino e pesquisa locais (Sociedade Civil).
Serra do Retiro
No município de Glória, a Trilha Serra do Retiro tem 1,9 quilômetro entre a base e o cume.
O percurso faz conexão com a Serra do Umbuzeiro, os Caminhos do Cangaço e a Trilha dos Cânions, em Paulo Afonso.
A trilha é gerida pelo guia de turismo local Eid Kentenich e por Fabia Vieira Alves, presidente da Associação de Moradores do Povoado Retiro.
Baixa do Chico
Também em Glória, a Trilha Baixa do Chico percorre o território Pankararé. O percurso tem cerca de 5 quilômetros e é realizado, em média, pelo leito seco.
Assim como a Serra do Retiro, a trilha se conecta ao conjunto de caminhos de Paulo Afonso, formando uma rede que reúne natureza, cultura e história na região do São Francisco.
Trilhas construídas por muitas mãos
Mais do que caminhos demarcados no meio da natureza, essas trilhas são resultado de articulações entre diferentes atores. Segundo Luciana Nogueira, da Rede Brasileira de Trilhas, elas geralmente surgem da sociedade civil e podem contar também com a participação de órgãos públicos ligados ao meio ambiente e ao turismo e das unidades de conservação por onde passam.
“As trilhas são sempre construções coletivas. Em geral, nascem ‘de baixo pra cima’, a partir da sociedade civil”, explica.
Segundo ela, as trilhas são mapeadas por suas próprias gestões. Algumas possuem constituição jurídica e outras não. Associações também podem funcionar como a representação jurídica desses caminhos.
“Porque a trilha, em si, pertence a todos”, resume Luciana.
Na Bahia, essa característica aparece em diferentes modelos de gestão: há percursos administrados em conjunto com unidades de conservação e comunidades locais, como os Caminhos do Brasil Original, associações responsáveis pela gestão, como no Caminho do Bom Jesus, e grupos da sociedade civil atuando em parceria com instâncias governamentais.
O resultado é uma rede ainda em expansão, que conecta diferentes paisagens baianas e transforma antigos caminhos, áreas protegidas e territórios comunitários em novas possibilidades de turismo de natureza.
Informações sobre as trilhas pode ser acessadas aqui.
